Na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, o encontro dos ternos de folia transforma o espaço religioso em um território de devoção e intensidade coletiva. Entre cantos, passos e instrumentos improvisados, o ritual se afirma pela força de sua permanência cultural. Os foliões ocupam a igreja com cantos religiosos que, por vezes, dissolvem as palavras em meio ao choque sonoro dos instrumentos musicais, em sua maioria de fabricação caseira. O aparente caos acústico não desorganiza o rito; ao contrário, é justamente dele que emerge sua potência simbólica. 
Cada instrumento carrega marcas da precariedade material e, simultaneamente, da inventividade popular — objetos construídos não apenas para produzir som, mas para sustentar vínculos entre fé, território e pertencimento. 
As imagens buscam captar a intensidade física e simbólica que atravessa este contexto: os rostos marcados pelo esforço do canto contínuo, as mãos que sustentam instrumentos de fabricação artesanal, os olhares dispersos entre a devoção e o transe coletivo, os corpos comprimidos pelo calor, pelo som e pela permanência do ritual. Em meio à densidade sonora e visual da celebração, a fotografia preserva não apenas a aparência, mas a atmosfera humana e cultural de uma tradição, como um testemunho sensível de um acontecimento efêmero, que se sustenta através do corpo, da música e da ocupação ritual do espaço. A Folia de Reis é muito mais do que uma festa; é um complexo sistema de significados que reforça laços comunitários, expressa identidades e oferece um espaço de resistência cultural. Ao documentar a Folia de Reis busco contribuir para a preservação de uma memória coletiva, oferecendo a oportunidade de uma conexão com uma parte essencial da nossa identidade.
Fotografia e pesquisa visual: Fabiano Lopes
Ensaio documental realizado em Montes Claros, Minas Gerais
Processo: Convivência e observação documental
Ano: 2009
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