Fruto de uma imersão longitudinal de anos, esse ensaio fotodocumental propõe-se a mapear não apenas o movimento, mas a persistência da memória inscrita nas formas de presença dos Catopês, Marujos e Caboclinhos. Mais do que o registro de uma festividade, estas imagens constituem um inventário de resistência cultural e uma cartografia do sagrado que ocupa as ruas. 
Ao longo desse percurso, tornou-se evidente que a fotografia, aqui, não poderia se sustentar como dispositivo de captura de uma suposta “essência” do Congado, mas inscrever-se como parte do encontro. 
As imagens emergem do tempo compartilhado: da espera antes do cortejo, do ajuste das fardas, do cansaço após o canto, da concentração que antecede o toque. O que se vê não é apenas a performance pública, mas também seus intervalos — momentos em que o rito respira e se reorganiza. Ao estruturar este ensaio, opta-se por não fixar um sentido único. As imagens operam como fragmentos de uma experiência mais ampla, convocando o olhar a reconhecer a complexidade do que está em jogo. Não se trata apenas de ver, mas de se implicar — ainda que provisoriamente — em um universo onde o sagrado, o político e o cotidiano não se separam. Este trabalho, portanto, se coloca menos como documento conclusivo e mais como campo de escuta visual: um esforço de atenção às formas pelas quais os Ternos de Congado continuam a produzir presença, identidade e pertencimento à linhagem dos mais velhos, à bandeira, ao chão que se dança.

Fotografia e pesquisa visual: Fabiano Lopes
Série documental realizada em Montes Claros, Minas Gerais
Processo: Convivência e observação documental
Ano: 2008/2018
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