No interior do terreiro, onde corpo, canto e ancestralidade se entrelaçam como linguagem viva, a celebração dos 35 anos de Matamba manifesta-se como rito de memória, permanência e potência espiritual. Senhora dos ventos, das tempestades e do fogo transformador no Candomblé de Angola, Matamba irrompe na liturgia como princípio de movimento: força que revolve a matéria e o espírito, que desestabiliza para renovar, que destrói apenas para permitir o renascimento. Sua presença ritualizada condensa uma cosmologia na qual transformação não é ruptura, mas condição essencial da continuidade da vida. Associada historicamente ao imaginário de guerreiras e à memória do Reino de Matamba — evocando simbolicamente a figura de Njinga Mbande, rainha de estratégia e resistência —, essa divindade ocupa lugar singular entre os nkisi como senhora da coragem, da paixão e dos espíritos ancestrais. Sua dança, seus gestos e seus emblemas não apenas representam atributos míticos: atualizam, no espaço do terreiro, uma ontologia em que natureza, ancestralidade e comunidade coexistem em permanente intercâmbio.
Na ocasião deste ensaio, fazia-se ainda presente entre os vivos a figura de Ricardo Rosa — Kiozô, o Tat'etu do Sertão — cuja trajetória ampliou os horizontes do terreiro para além da liturgia, convertendo-o também em espaço de conhecimento, pesquisa e partilha.
Ao abrir sua casa para pesquisadores, professores e estudantes, transformou o espaço ritual em território pedagógico e de difusão dos saberes das religiões de matriz africana. Anos após a realização deste registro fotográfico, sua partida confere a essas imagens um valor ainda mais profundo: o de testemunho sensível de sua presença, de seu legado e da continuidade de uma tradição que ajudou a preservar e dignificar. Mais do que uma comemoração, a festa de Matamba constitui um acontecimento cosmológico e social — um momento em que a comunidade reafirma sua aliança com o sagrado, sua memória ancestral e sua compreensão de mundo. Sob sua regência, a transformação deixa de ser mero fenômeno natural para tornar-se princípio ético e espiritual: mudar é sobreviver, resistir e continuar. Sua memória permanece entranhada na própria matéria do terreiro: no chão pisado pelos iniciados, nos cânticos que continuam a subir aos céus, na continuidade da tradição.
Fotografia e pesquisa visual: Fabiano Lopes
Ensaio documental realizado em Montes Claros, Minas Gerais
Processo: Convivência e observação documental
Ano: 2012
Ensaio documental realizado em Montes Claros, Minas Gerais
Processo: Convivência e observação documental
Ano: 2012